243 400 313
História

As origens mais remotas da vila de Alcanede não são evidentes. Sabe-se que a região da Serra da Mendiga teve ocupação humana desde o Paleolítico Superior, por via dos vários achados encontrados na zona. No entanto, a fixação humana no lugar onde hoje se erige Alcanede parece ser bem mais recente. Atualmente, está posta de lado a hipotética fundação romana da vila em 150 a. C. com funções militares. Por outro lado, segundo investigações recentes, o lugar que hoje é Alcanede ficaria numa via de comunicação secundária entre Santarém e a Serra da Mendiga. Na verdade, a origem, ainda pouco clara, do topónimo “Alcanede” poderá estar a associada ao termo árabe para ”as pontes”, designando então várias pontes de construção ancestral cujos vestígios ainda subsistem. Todavia, a tradição etimológica dos séculos anteriores, fazia derivar o termo Alcanede da palavra árabe para “sombrio” ou da romanização de “cannit”, antropónimo de algum proprietário da zona.

Ficou cristalizada na tradição a fundação da vila por D. Afonso Henriques. Nesse sentido, a própria edificação do Castelo de Alcanede parece ter resultado da estratégia de povoamento e de defesa do reino levada a cabo pelo nosso primeiro monarca. Afonso Henriques encarrega Gonçalo de Sousa de povoar Alcanede, entregando um pouco mais tarde a jurisdição eclesiástica aos monges de Santa Cruz de Coimbra. A data efetiva da fundação da vila poderá, inclusivamente, ser anterior a 1163, ano consagrado em diversas fontes. Ainda no contexto político da Reconquista, já em 1218, D. Sancho I fez a doação do Castelo de Alcanede à Ordem de Avis, a qual em reinados posteriores receberia também a jurisdição eclesiástica da vila.

A vila foi florescendo durante a Idade Média, tendo sido realizados melhoramentos no Castelo durante o reinado de D. Fernando. Nestes tempos medievais, a população de Alcanede esteve sujeita à obrigação de pagar um jantar ao Rei, privilégio que a partir do século XV os monarcas foram concedendo a particulares como “mercê real”. Ficou gravada na memória dos povos a passagem por Alcanede do cortejo fúnebre de D. João II, cujo corpo permaneceu na Igreja Matriz, na viagem entre Alvor e o Mosteiro de Alcobaça.

É pouco provável a existência dos forais medievais de D. Afonso Henriques (1163) e de D. Afonso IV (1333), hipoteticamente, dados a esta vila, segundo alguns autores. Porém, tudo indica que, já nesse último reinado, os procuradores de Alcanede tenham tomando assento nas Cortes realizadas em Santarém, sendo comum a participação dos mesmos pelo menos até 1482. Essa prerrogativa de participação em cortes, assim como outros privilégios e obrigações do concelho deveriam ser objeto costumes ou de outras disposições legais, na ausência de foral. O Foral foi efetivamente concedido a Alcanede por D. Manuel I, dado em conjunto à vila de Pernes (a qual até 1598 fazia parte da mesma unidade territorial), a 22 de Dezembro de 1514, no contexto da reforma manuelina dos forais. Conhecem-se as três cópias do documento: a “cópia da vila”, hoje à guarda da Biblioteca Municipal de Santarém; a “cópia do Rei”, trasladada na “Leitura Nova”; e a “cópia do senhorio”, guardada no fundo documental da Ordem de Avis, sendo que estes dois documentos estão na Torre do Tombo.

A Igreja Matriz de Alcanede será sem dúvida, juntamente com o Castelo e com a Capela da Misericórdia, um dos esteios do património edificado da vila. De fundação medieval, o templo foi reformado e no século XVII devendo, fundamentalmente, a esse período o seu aspecto a atual. Muito provavelmente, em 1601 foi fundada a Irmandade do Espírito Santo da qual origina a atual Santa Casa da Misericórdia de Alcanede. O templo, originalmente maneirista, foi reformulado durante o século XVIII. Também no período filipino, muito brevemente, institui-se o Condado de Alcanede, com entrega do título a D. Francisco de Luís de Lencastre, situação que nunca viria a ser legitimada pelos monarcas portugueses depois da Restauração. Nessa época, por influência do jesuíta Pedro Jusarte, Padre António Vieira visitou brevemente Alcanede, estando na vila entre Julho e Agosto de 1679, onde chegou a escrever pelo menos três cartas.

No início do século XVIII, o erudito Simão Froes de Lemos escreveu a sua Notícia Histórico Topográfica da vila de Alcanede (…), essa primeira “história de Alcanede” trata-se de um documento fundamental que salvaguardou diversas fontes essenciais para a memória local. De facto, no século subsequente as Invasões Francesas devastaram a região, destruindo recursos diversas, mas também preciosas fontes históricas. Em Fevereiro de 1811 deu-se o “Combate de Alcanede”, um dos confrontos finais do exército anglo-luso com as tropas da terceira invasão, que já procuravam linhas de retirada.

Como sabemos o fim das invasões trouxe uma paz efémera ao país, porém não há registos de combates em Alcanede durantes a lutas que antecederam a instauração do liberalismo. O novo regime reformou praticamente todas as instituições. Foram criados novos municípios com uma clara uniformidade administrativa. O concelho de Alcanede, criado a 16 de Maio de 1832, integrava, para além da sede, as freguesias de Abrã, de Alcobertas, das Fráguas e de Tremês. Esse município acabou por ser extinto a 24 de Outubro de 1855 e integrado quase totalmente no concelho de Santarém, curiosamente a última ata da Câmara de Alcanede data de Dezembro de ano.

A atual freguesia de Alcanede engloba uma multiplicidade de aldeias e de lugares para além da sede, ainda que grande parte dos antigos termo e concelho de Alcanede hoje esteja integrada noutras freguesias ou municípios. De qualquer forma, Alcanede é maior freguesia do concelho de Santarém fora da cidade, tanto em extensão como em número de habitantes, mantendo uma dinâmica vida económica e uma sociabilidade muito própria.

 

Escrito por Dr. José Raimundo Noras

Mais nesta categoria: Albums »

Freguesia de Alcanede
Largo D. Afonso Henriques, nº 2
2025-045 Alcanede
Telf: 243 400 313

Serviços

Facebook

IR PARA
TOPO
DMC Firewall is developed by Dean Marshall Consultancy Ltd